E
se meu reflexo no espelho perguntasse qual a desgraça do mundo? Sorriria de
canto e estreitaria os olhos, um segundo antes de dizer tratar-se de fácil e
imediata resposta:
–
É o ser humano. Conhece algum mal não causado por ele?
O
interlocutor arregalaria os olhos e deprimiria o canto dos lábios ou,
contrariando a generalizada atitude otimista e vã, sorriria por condescendência
ou educação. Não o deixaria emitir nenhum comentário por alguns minutos, a fim
de não estragar o silêncio reflexivo acerca daquela pergunta dentro da
resposta.
–
Digo isto – continuaria – com a serenidade do moribundo que se resignou à
inexorabilidade da morte, arrastando-se para o quinto degrau de Kübler-Ross. A
melhor chance seria o mundo se desintegrar e se reconstruir, preferentemente
sem a nossa espécie, ou com outro tipo de Homo.
Como isto não acontecerá, ao menos não nos próximos milênios, resta-se viver da
forma como melhor aprouver e observar a lenta evolução dos comportamentos. Quer
os atos concorram a favor, quer contra, sua velocidade é inabalável. Inútil,
portanto, investir duma ou doutra forma.
“Concluirá
que meu neopessimismo exalta a passividade, a apatia diante das rotações dos
ponteiros e dos acontecimentos neles inclusos. Em verdade, pode-se espremer algo
de otimista: crê na – vagarosa – melhoria do mundo, por mais males que haja.
Não crê, porém, nos homens, pois pouco se mudou a essência das atitudes desde a
era paleolítica até o segundo milênio pós-Cristo. Não crê que a espécie humana
persista sobre o globo, pois é incompatível com a evolução e a perfeição.”
Interromper-me-ia
para um gole do chá, recebendo pergunta já respondida: não há esperança para a
humanidade?
–
Se respondesse que sim, não seria neopessimista, mas não é apenas para defender
um movimento filosófico-literário que responderia que não. Os fatos rejeitam
argumentos. Em cerca de duzentos mil anos de Homo sapiens, qual o saldo?
Outra
pausa reflexiva. Aproveitaria para mordiscar um biscoitinho. “Hum, bom”,
pensaria. Ouviria: “Então, qual o saldo?” “Não é óbvio?”, diria, mas
acreditando não estar diante de néscio, apenas querendo aumentar o tom e a
expectativa.
–
Desmatamento, extinção, guerras, armas, violência, drogas, homicídios, acidentes,
doenças, ambição, corrupção, usura, egoísmo, degelo dos polos, buraco na camada
de ozônio, efeito estufa, chuva ácida, poluição aquífera, aérea, sonora…
Pararia
para recuperar o fôlego. Imutável meu semblante tranquilo. Finalmente, o
entrevistador revelaria de que lado estava. Definitivamente, o risinho do
começo foi por educação, não por anuência. “Mas o homem também descobriu a cura
para muitas doenças; criou diversas engenhocas que facilitaram a vida…”,
replicaria indignado.
–
Atrasos insignificantes no rumo da entropia que o próprio homem deflagrou. De
forma alguma se aproximam de compensar as dívidas que possui. Para evoluir, é
mister renascer. O homem destruirá o mundo e a si mesmo, e essa será a grande
oportunidade de restauração do planeta.
–
Você já quis se suicidar? Quero dizer, você é feliz? – Arguiria com menos voz
num tom passivo-agressivo. Sorrindo maroto, diria:
–
Você considera deprimentes as minhas ideias. Outra pessoa se ofenderia, mas
digo que deve haver raras coisas com potencial de ainda me afetar. Antes de
responder suas perguntas, enfatizo que não pretendo deprimi-lo, menos ainda
convencê-lo ou aos leitores das minhas crenças. – Outro gole do chá. – Nunca
pensei em me suicidar porque sou feliz. Conhecer a verdade, parafraseando a
Bíblia, realmente liberta. Cada um deve fazer apenas o que o faz feliz. Uns são
felizes por nutrirem esperança, eu sou feliz por não tê-la, por não ver
frustradas as expectativas. Sim, é um pensamento similar ao carpe diem arcadista, se é o que está
pensando.
–
Deixar de investir esforços na melhoria do mundo para investir em si e na
própria felicidade não é uma atitude egoísta?
–
Disse anteriormente que se deve fazer o que apraz. Se o indivíduo fica feliz em
praticar a caridade, deve fazê-lo; do contrário, se o faz para meramente
cumprir um dogma religioso ou para se exibir como bom samaritano, não vejo
virtude nisso. Percebe? Mesmo a prática do bem pode ter motivação egoísta: ora
o próprio bem-estar, ora buscar um lugar no paraíso ou a própria evolução, ora
figurar como bom moço perante a sociedade. É a lei da recompensa, inata a
todos. Logo, pode-se empregar esforços a favor do mundo se assim se desejar
porque, afinal, estará investindo em si mesmo, o que é indubitavelmente melhor
do que trabalhar a favor do mal ou depositar nele o prazer. A recíproca é
verdadeira: investir em si mesmo e ser feliz torna o mundo menos ruim, pois não
haverá motivo ou justificativa para praticar a maldade. Não concorda que deixar
de fazer o mal é, ao menos, um primeiro passo para promover o bem?
–
E se alguém encontrar na maldade a felicidade?
–
Não há felicidade na maldade. Pode haver prazer efêmero, mas jamais felicidade.
–
Isso não soa clichê ou mesmo otimista?
–
Para você ver que não há depressão ou revolta. Por isso, é uma nova forma de
ser pessimista.
Quase
não perceberia chegar ao último gole da xícara e ao último biscoitinho. Menos
perplexo com minhas ideias – talvez, quase adepto delas – o interlocutor
findaria:
–
Como resume o neopessimismo?
–
Resignação à existência do mal na Humanidade e à sua insolvência ainda por
muitos séculos; crente de que o progresso é lento demais para percebermos e que
o pouco que pudermos fazer de bom com nossas próprias vidas já representa um
átomo desse progresso.
–
Muito obrigado por seu tempo.
–
Ao dispor.