domingo, 3 de novembro de 2019

Autoentrevista neopessimista



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E se meu reflexo no espelho perguntasse qual a desgraça do mundo? Sorriria de canto e estreitaria os olhos, um segundo antes de dizer tratar-se de fácil e imediata resposta:
– É o ser humano. Conhece algum mal não causado por ele?
O interlocutor arregalaria os olhos e deprimiria o canto dos lábios ou, contrariando a generalizada atitude otimista e vã, sorriria por condescendência ou educação. Não o deixaria emitir nenhum comentário por alguns minutos, a fim de não estragar o silêncio reflexivo acerca daquela pergunta dentro da resposta.
– Digo isto – continuaria – com a serenidade do moribundo que se resignou à inexorabilidade da morte, arrastando-se para o quinto degrau de Kübler-Ross. A melhor chance seria o mundo se desintegrar e se reconstruir, preferentemente sem a nossa espécie, ou com outro tipo de Homo. Como isto não acontecerá, ao menos não nos próximos milênios, resta-se viver da forma como melhor aprouver e observar a lenta evolução dos comportamentos. Quer os atos concorram a favor, quer contra, sua velocidade é inabalável. Inútil, portanto, investir duma ou doutra forma.
“Concluirá que meu neopessimismo exalta a passividade, a apatia diante das rotações dos ponteiros e dos acontecimentos neles inclusos. Em verdade, pode-se espremer algo de otimista: crê na – vagarosa – melhoria do mundo, por mais males que haja. Não crê, porém, nos homens, pois pouco se mudou a essência das atitudes desde a era paleolítica até o segundo milênio pós-Cristo. Não crê que a espécie humana persista sobre o globo, pois é incompatível com a evolução e a perfeição.”
Interromper-me-ia para um gole do chá, recebendo pergunta já respondida: não há esperança para a humanidade?
– Se respondesse que sim, não seria neopessimista, mas não é apenas para defender um movimento filosófico-literário que responderia que não. Os fatos rejeitam argumentos. Em cerca de duzentos mil anos de Homo sapiens, qual o saldo?
Outra pausa reflexiva. Aproveitaria para mordiscar um biscoitinho. “Hum, bom”, pensaria. Ouviria: “Então, qual o saldo?” “Não é óbvio?”, diria, mas acreditando não estar diante de néscio, apenas querendo aumentar o tom e a expectativa.
– Desmatamento, extinção, guerras, armas, violência, drogas, homicídios, acidentes, doenças, ambição, corrupção, usura, egoísmo, degelo dos polos, buraco na camada de ozônio, efeito estufa, chuva ácida, poluição aquífera, aérea, sonora…
Pararia para recuperar o fôlego. Imutável meu semblante tranquilo. Finalmente, o entrevistador revelaria de que lado estava. Definitivamente, o risinho do começo foi por educação, não por anuência. “Mas o homem também descobriu a cura para muitas doenças; criou diversas engenhocas que facilitaram a vida…”, replicaria indignado.
– Atrasos insignificantes no rumo da entropia que o próprio homem deflagrou. De forma alguma se aproximam de compensar as dívidas que possui. Para evoluir, é mister renascer. O homem destruirá o mundo e a si mesmo, e essa será a grande oportunidade de restauração do planeta.
– Você já quis se suicidar? Quero dizer, você é feliz? – Arguiria com menos voz num tom passivo-agressivo. Sorrindo maroto, diria:
– Você considera deprimentes as minhas ideias. Outra pessoa se ofenderia, mas digo que deve haver raras coisas com potencial de ainda me afetar. Antes de responder suas perguntas, enfatizo que não pretendo deprimi-lo, menos ainda convencê-lo ou aos leitores das minhas crenças. – Outro gole do chá. – Nunca pensei em me suicidar porque sou feliz. Conhecer a verdade, parafraseando a Bíblia, realmente liberta. Cada um deve fazer apenas o que o faz feliz. Uns são felizes por nutrirem esperança, eu sou feliz por não tê-la, por não ver frustradas as expectativas. Sim, é um pensamento similar ao carpe diem arcadista, se é o que está pensando.
– Deixar de investir esforços na melhoria do mundo para investir em si e na própria felicidade não é uma atitude egoísta?
– Disse anteriormente que se deve fazer o que apraz. Se o indivíduo fica feliz em praticar a caridade, deve fazê-lo; do contrário, se o faz para meramente cumprir um dogma religioso ou para se exibir como bom samaritano, não vejo virtude nisso. Percebe? Mesmo a prática do bem pode ter motivação egoísta: ora o próprio bem-estar, ora buscar um lugar no paraíso ou a própria evolução, ora figurar como bom moço perante a sociedade. É a lei da recompensa, inata a todos. Logo, pode-se empregar esforços a favor do mundo se assim se desejar porque, afinal, estará investindo em si mesmo, o que é indubitavelmente melhor do que trabalhar a favor do mal ou depositar nele o prazer. A recíproca é verdadeira: investir em si mesmo e ser feliz torna o mundo menos ruim, pois não haverá motivo ou justificativa para praticar a maldade. Não concorda que deixar de fazer o mal é, ao menos, um primeiro passo para promover o bem?
– E se alguém encontrar na maldade a felicidade?
– Não há felicidade na maldade. Pode haver prazer efêmero, mas jamais felicidade.
– Isso não soa clichê ou mesmo otimista?
– Para você ver que não há depressão ou revolta. Por isso, é uma nova forma de ser pessimista.
Quase não perceberia chegar ao último gole da xícara e ao último biscoitinho. Menos perplexo com minhas ideias – talvez, quase adepto delas – o interlocutor findaria:
– Como resume o neopessimismo?
– Resignação à existência do mal na Humanidade e à sua insolvência ainda por muitos séculos; crente de que o progresso é lento demais para percebermos e que o pouco que pudermos fazer de bom com nossas próprias vidas já representa um átomo desse progresso.
– Muito obrigado por seu tempo.
          – Ao dispor.



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